Por Fábio Maeda

Diretor de Controle e Risco do Banco da Amazônia

Os debates de alto nível da Brazil Week e os painéis estratégicos do Global Citizen NOW, em Nova Iorque, consolidaram uma clareza imediata sobre o papel do Brasil no cenário global. O mundo inteiro olha para a Amazônia. No entanto, o nosso desafio mais urgente e complexo é fazer esse mesmo mundo enxergar, compreender e acolher as pessoas que vivem nela.

Existe hoje um consenso internacional robusto de que há capital estrangeiro e privado abundante disponível para financiar a sustentabilidade na maior floresta tropical do planeta. O grande gargalo estrutural, contudo, não é a escassez de recursos, mas a ausência de uma “Amazônia financiável” sob os moldes rígidos e tradicionais do mercado corporativo clássico.

A vulnerabilidade social, a falta de histórico bancário e o isolamento geográfico historicamente empurram a população local para as margens da economia formal. Esse ciclo de exclusão enfraquece o desenvolvimento regional e deixa o território e os seus habitantes suscetíveis ao domínio do tráfico, do desmatamento ilegal e de organizações criminosas que ocupam os vazios do Estado e do mercado.

Para romper de vez com essa dinâmica persistente, o Banco da Amazônia assumiu o protagonismo de uma aliança global inédita. Em parceria com o Instituto Amazônia+21 (vinculado à CNI) e com a organização internacional Global Citizen, anunciamos oficialmente, em solo norte-americano, o lançamento do Fundo Rural+Verde, operado pela Facility de Investimentos Sustentáveis (Fais).

Este mecanismo representa um marco definitivo na nossa estratégia de transição econômica regional. Como diretor de Controle e Risco do Banco da Amazônia, compreendo que a nossa missão institucional vai muito além de conceder empréstimos tradicionais ou gerenciar salvaguardas. Nosso papel é liderar e arquitetar novas modelagens financeiras que mitiguem riscos reais, absorvam as complexidades da floresta e resolvam os desafios históricos do território. Sustentabilidade sem inclusão bancária é apenas retórica; o Fundo Rural+Verde é a nossa resposta prática para transformar ativos ambientais em dignidade humana.

O Fundo Rural+Verde foi desenhado sob o inovador conceito de blended finance (financiamento misto), um modelo capaz de combinar capital filantrópico ou de fomento, cujos recursos possuem menor custo e toleram maior risco, com o investimento privado comercial.

Atuando como cotista-âncora dessa operação, o Banco da Amazônia realizou um aporte inicial de US$ 2 milhões, disparando uma captação internacional ousada que tem como meta atingir US$ 25 milhões até setembro deste ano. Iniciar essa jornada com recursos filantrópicos atende a uma decisão estritamente estratégica: o fundo funcionará como um poderoso catalisador para estruturar projetos, preparar as cadeias produtivas no território e diminuir os riscos antes que os grandes aportes comerciais privados cheguem. É o maior fundo catalítico do país totalmente dedicado a transformar iniciativas socioambientais em ativos estruturados e bancáveis.

A urgência e a importância vital deste fundo residem na sua capacidade de preencher o abismo que separa os grandes fundos de pensão globais do pequeno produtor ribeirinho. Ao absorver as primeiras camadas de risco por meio do capital catalítico, o Fundo Rural+Verde cria um colchão de proteção financeira que atrai investidores institucionais avessos às complexidades da floresta. Não estamos lidando com assistencialismo, mas com inteligência de mercado aplicada à conservação. Essa engenharia financeira descentraliza o acesso ao crédito, garantindo que o dinheiro carimbado para o clima em Nova Iorque ou Londres chegue de forma desburocratizada à ponta final da cadeia produtiva, onde a transformação ambiental acontece.

O coração pulsante desta iniciativa está direcionado para a agricultura regenerativa e o fortalecimento da bioeconomia. Financiar o desenvolvimento sustentável na Amazônia não pode significar apenas cercar a floresta e observá-la de forma contemplativa; precisamos criar riqueza real, circular e justa por meio do uso responsável e tecnológico de seus recursos biológicos.

Os pequenos produtores rurais, as comunidades extrativistas e as famílias ribeirinhas são os verdadeiros e mais eficientes guardiões desse bioma. No entanto, eles não conseguirão cumprir essa missão crucial a longo prazo se forem privados das ferramentas financeiras básicas para prosperar socialmente.

Diante disso, o fundo estabelece três objetivos centrais e inegociáveis para o sucesso da região. O primeiro é a substituição de práticas agrícolas degradantes por sistemas agroflorestais que recuperam o solo enquanto geram renda. O segundo é a estruturação de uma governança transparente e robusta no território, capacitando cooperativas locais para atender aos critérios internacionais de conformidade social e ambiental. Por fim, o objetivo máximo é a fixação do homem no campo com qualidade de vida, oferecendo uma alternativa econômica viável, lícita e rentável, que neutralize de forma definitiva o avanço da criminalidade e do desmatamento ilegal sobre as comunidades vulneráveis.

Para compreender o impacto cirúrgico que pretendemos gerar na Amazônia por meio desse fundo, vale analisar o projeto-piloto de descarbonização e transição energética que estamos estruturando para a cadeia da pesca artesanal.

Atualmente, o pescador na Amazônia enfrenta uma realidade paradoxal: embora sua atividade possua uma capacidade de geração de receita bruta expressiva, a dinâmica local consome a maior parte desse faturamento. A dependência quase total de combustíveis fósseis para movimentar as embarcações e gerar energia básica engole as margens de lucro do trabalhador.

Esse cenário torna-se ainda mais dramático diante da ausência crônica de redes elétricas estáveis e de infraestrutura para o processamento local. Sem uma cadeia de frio estruturada nas comunidades isoladas, o resultado é um desperdício massivo e trágico de pescado, que estraga antes mesmo de alcançar os mercados consumidores.

Ao direcionarmos o capital do Fundo Rural+Verde para financiar, de forma assistida, a eletrificação desses barcos, a instalação de painéis solares comunitários e a montagem de pequenas plantas de refrigeração local, atacamos duas frentes críticas de uma só vez.

Primeiro, promovemos a descarbonização de uma cadeia produtiva vital, eliminando a queima diária de combustíveis. Depois, operamos uma transformação social profunda na vida dessas famílias: ao reduzir os custos operacionais com gasolina e estancar o desperdício da produção, a renda líquida do trabalhador é multiplicada.

Essa abordagem redefine o conceito de desenvolvimento regional: saímos da exportação pura de insumos brutos e avançamos em direção a uma industrialização descentralizada e sustentável na base da pirâmide, garantindo que o valor agregado e a riqueza permaneçam dentro das próprias comunidades nativas.

O debate global sobre a transição energética não pode ignorar as particularidades da maior floresta do mundo. Durante as agendas técnicas que cumprimos em Nova Iorque, que incluíram visitas ao Brooklyn Marine Terminal para estudar o funcionamento de portos elétricos e a análise de planos de resiliência climática, ficou evidente que a tecnologia para a sustentabilidade já existe.

O que faltava, e que agora o Banco da Amazônia ajuda a construir com o Fundo Rural+Verde, é a ponte financeira inteligente capaz de adaptar essas soluções inovadoras à realidade geográfica e humana das nossas comunidades isoladas.

Como diretor de Controle e Risco, enxergo este movimento como um divisor de águas na reputação e no portfólio do Banco. Ao internalizarmos essas modelagens disruptivas, preparamos o Banco da Amazônia para liderar a agenda de finanças verdes que o país defenderá nas próximas conferências globais pelo clima.

O Fundo Rural+Verde consolida-se, portanto, como uma vitrine de eficiência e integridade corporativa, provando ao mercado financeiro que o rigor no gerenciamento de riscos e o impacto socioambiental positivo não são excludentes, mas faces complementares da mesma moeda econômica moderna.

Ao conectarmos o mercado financeiro internacional à preservação ambiental na Amazônia, demonstramos que a rentabilidade econômica e a regeneração ecológica andam juntas. Com um portfólio robusto de fomento e o conhecimento técnico acumulado de quem opera na região, reafirmamos o compromisso institucional do banco de estruturar soluções robustas e inclusivas, preparando o nosso território de forma sustentável para os olhos e as cobranças urgentes que virão com as agendas globais pelo clima.

Financiar o futuro verde da Amazônia é, antes de tudo, investir no sucesso da sua própria gente.