Oficina com a multiartista Arteira Hermosa promove imersão em saberes ancestrais e experimentação com pigmentos naturais no Dia dos Povos Indígenas

Em alusão ao Dia dos Povos Indígenas, Belém recebeu uma experiência que uniu arte, memória e identidade amazônica. A oficina “Vivência de Grafismo Amazônico”, ministrada pela multiartista indígena palikur Arteira Hermosa, convidou o público a mergulhar em saberes ancestrais por meio de uma imersão sensorial marcada por cores, texturas e significados.

Realizado no Centro Cultural Banco da Amazônia, neste domingo (19), o encontro proporcionou não apenas o contato com grafismos dos povos Tiriyó e Tupinambá, mas também uma reflexão sobre o simbolismo e a importância cultural dessas expressões. Entre histórias pessoais e demonstrações práticas, Hermosa apresentou o preparo de pigmentos naturais, principalmente com o jenipapo, permitindo que os participantes experimentassem, no corpo e no papel, a riqueza de uma arte viva que atravessa gerações.

É uma honra ter sido convidada para falar sobre a minha cultura e ser tratada como uma referência dentro das artes, sendo uma mulher indígena”, comentou Alice Cristina da Silva, conhecida artisticamente como Arteira Hermosa. “O grafismo, para os povos indígenas, é muito mais do que identificação. Ele representa o cuidado com o próprio corpo e com o espírito. No momento em que nos encontramos no país, em que tudo é retirado de nós, estar protegido e se entender enquanto pessoa indígena também é se caracterizar como uma e compreender a própria identidade amazônida. O grafismo é importante para esse tipo de retomada da nossa identidade e do nosso reconhecimento dentro da Amazônia.

Além da experimentação prática, a oficina foi marcada pela forte interação do público com as referências de grafismos indígenas apresentadas por Arteira Hermosa. Curiosos e engajados, os participantes levantaram questionamentos sobre os significados dos traços, as diferenças entre os grafismos dos povos Tiriyó e Tupinambá e, especialmente, sobre o uso do jenipapo como pigmento — desde sua fixação na pele até suas dimensões culturais. A artista destacou o jenipapo como um elemento amazônida e latino-americano, tradicionalmente utilizado por povos indígenas em seus territórios, o que despertou ainda mais o interesse do público. O momento se transformou em uma rica troca de saberes, em que cada pergunta ampliava a compreensão da arte como expressão de identidade, território e ancestralidade.

Para as meninas Maitê Forest e Eloá Lisboa, de 11 e 9 anos, respectivamente, a oficina foi um momento especial de aprendizado e diversão que ficará marcado na memória. “No começo, eu fiquei com preguiça de vir porque é domingo e estava chovendo muito, mas quando descobri que tinha tatuagem, fiquei curiosa”, contou Maitê, aos risos. “Mas acabei aprendendo que a pintura corporal é bem mais do que isso. Descobri que ela representa uma conexão com a vivência dos indígenas, é como eles se identificam, está relacionada ao dia a dia deles e é um tipo de arte bem legal que pode expressar nossos sentimentos e tudo o que enxergamos. Então é bem inspirador.”

Já Eloá destacou que achou interessante como as pinturas e grafismos mudam de pessoa para pessoa. “Um animal, uma planta, uma fruta não são pintados de uma única forma. Não existe um padrão do que é correto ou não. Cada pessoa tem sua visão e pode expressá-la de maneira diferente, por isso cada grafismo e cada arte criada são muito especiais”, afirmou, enquanto segurava a tinta de jenipapo ao lado da amiga Maitê.

Dia dos Povos Indígenas reforça a valorização das raízes amazônicas no Pará

De acordo com o psicólogo Laércio Silva, participante da oficina, a experiência foi cheia de descobertas. “Foi um grande achado, porque foi a primeira vez que eu usei e toquei o jenipapo, aprendi sobre ele e também nunca tinha utilizado um pincel natural para pintura. Foi uma experiência muito especial”.

Ele também destacou a importância de iniciativas como essa para o fortalecimento da identidade cultural. “Este evento é muito importante, porque quanto mais as pessoas têm informação sobre sua origem, mais provável é que busquem sua ancestralidade e influenciem outras pessoas a conhecer nossa história. É preciso que o povo amazônida lembre que somos autóctones, nos originamos aqui e precisamos manter essa história viva e pulsante, por meio da nossa arte, da nossa cultura e da nossa alimentação. Então, esse evento é muito mais do que apenas uma oficina; ele abrange toda uma comunidade que precisa se conhecer melhor”.

A trajetória de Arteira Hermosa evidencia como a pluralidade de linguagens artísticas presentes em seu trabalho reflete a própria diversidade cultural do Pará e da Amazônia. Transitando entre a tatuagem, o muralismo, intervenções urbanas, poesia, audiovisual e experimentações com tecido e vestuário, a artista traduz, em diferentes suportes, a riqueza simbólica dos territórios amazônicos e de seus povos. Essa multiplicidade não apenas amplia as formas de expressão, mas também fortalece a arte como instrumento de conscientização, conectando estética e propósito ao valorizar saberes ancestrais e promover reflexões sobre o cuidado com o meio ambiente. Reconhecida internacionalmente, Hermosa reafirma, por meio de sua produção, o papel da arte como ponte entre cultura, identidade e sustentabilidade.

Inálio Cruz, colaborador do Banco da Amazônia e pai de Maitê, reitera que a oficina e as exposições promovidas pelo Centro Cultural são uma oportunidade de despertar o interesse pela cultura do estado nas novas gerações. “Apesar da correria de estar com três crianças em uma exposição, com todo o cuidado e atenção que isso exige, conseguimos transformar esse passeio em um exercício crítico. Não é só mostrar as coisas, é questionar, buscar saber o que elas sentem com as fotografias e com a pintura corporal, além de mostrar como somos diferentes e vivemos em um lugar muito diverso. É por isso que as trago, para desenvolver nelas essa sensibilidade e esse senso crítico sobre o que nos cerca”, explica.

Segundo Cláudia Águilla, coordenadora do Centro Cultural Banco da Amazônia, a oficina é uma forma de evidenciar o reconhecimento da conexão existente entre a instituição e a diversidade cultural da Amazônia. “Este Centro Cultural é uma instituição do Governo Federal, é público e pertence a todos e todas. Nosso objetivo é fortalecer o cenário cultural no Pará e também proporcionar aos artistas regionais um espaço para exibição de suas criações e expressões. Isso também fomenta a economia, pois, ao conhecer o que é produzido pelos artistas da região, o público passa a consumir mais essas obras, criando uma rede de apoio e reconhecimento muito forte para o que é da Amazônia”, conclui.

Ação especial aproxima público das exposições

O Centro Cultural Banco da Amazônia também lançou uma ação especial para aproximar ainda mais o público de sua programação: quem passar a seguir o perfil @bancoamazoniacultural no Instagram garante um presente exclusivo. A campanha é válida apenas para novos seguidores, que devem comparecer ao espaço até o dia 26 de abril, das 10h às 16h, de terça a sexta-feira, e de 10 às 14h aos sábados, domingos e feriados, e apresentar o perfil na recepção para retirar o presente. A iniciativa acontece em meio a uma agenda ativa de exposições, como “Trabalhadores”, de Sebastião Salgado, “Trajetórias: arte contemporânea paraense (1959–2026)” e “Uma Belém no Olhar de Alguém”, reforçando o convite para que o público vivencie a arte e a cultura amazônica de forma ainda mais próxima.