Krenak e Nagakura se cruzam em um ponto em comum: ambos ajudam o mundo a enxergar a Amazônia e os povos da floresta com outros olhos, um pela palavra e outro pela imagem.
Quem é Ailton Krenak?
Ailton Krenak é líder indígena, filósofo, ambientalista e um dos principais pensadores do Brasil quando o assunto é futuro do planeta e direitos dos povos originários. Ele pertence ao povo Krenak, de Minas Gerais, e ganhou projeção nacional desde a década de 1980 pela sua atuação no movimento indígena.
Em 1985, fundou o Núcleo de Cultura Indígena, organização dedicada a promover a cultura e a voz dos povos indígenas. Em 2024, tornou-se o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, um marco histórico para a literatura e para a representatividade indígena no país.
Além de liderança política, Krenak é autor de livros que se tornaram best-sellers, como “Ideias para adiar o fim do mundo”, “A vida não é útil” e “Futuro ancestral”. Nessas obras, ele questiona o modelo de desenvolvimento que trata a natureza como recurso e não como parente, propondo uma educação para a convivência e não para a exploração.
Sua fala mistura filosofia, memória indígena e crítica social, sempre lembrando que a crise climática também é uma crise de imaginação sobre como queremos viver na Terra.
Um gesto que marcou a história
Uma das imagens mais marcantes da trajetória de Krenak ocorreu durante a Assembleia Constituinte, em 1987. Ao discursar contra o retrocesso nos direitos indígenas, ele pintou o rosto com tinta preta de jenipapo, um gesto de luto para seu povo, em plena tribuna da Câmara dos Deputados.
A cena tornou-se um símbolo da resistência indígena no processo de redemocratização do Brasil.
Esse momento ajudou a consolidar Krenak como uma das vozes centrais na defesa da demarcação de terras, da proteção da Amazônia e da garantia de direitos constitucionais para os povos originários. Mais tarde, ele participaria da fundação da União dos Povos Indígenas e da Aliança dos Povos da Floresta, iniciativas que aproximaram comunidades indígenas, ribeirinhas e seringueiros na luta por territórios e modos de vida sustentáveis.
Krenak e a Amazônia
Mesmo sendo de Minas Gerais, Krenak é uma das vozes mais influentes quando o tema é Amazônia e mudanças climáticas. Em entrevistas e artigos recentes, ele critica a tendência de transformar a floresta em “símbolo” de conferências climáticas, sem garantir que os povos que vivem nela tenham poder real de decisão.
Para ele, a Amazônia não pode ser apenas cenário de grandes eventos globais: é território vivo, com gente, cultura e conflitos concretos.
Ao comentar a COP30 em Belém, Krenak alerta para o risco de a economia “sequestrar” o debate climático, priorizando interesses de mercado em detrimento das comunidades locais.
Ele insiste que qualquer solução verdadeira para o futuro do planeta passa por ouvir os povos da floresta, reconhecer seus saberes e garantir que tenham voz em decisões sobre terra, água e energia.
É essa combinação de crítica, espiritualidade e projeto de futuro que faz de Krenak uma referência mundial.
Quem é Nagakura?
Quando se fala em Nagakura nesse contexto, o nome mais frequentemente associado à Amazônia é o do fotógrafo japonês Hiromi Nagakura. Nascido em 1952, na cidade de Kushiro, no norte da ilha de Hokkaido, ele se formou em Direito, mas escolheu seguir a carreira de fotógrafo documental.
Seu trabalho é conhecido por registrar povos tradicionais, viagens e paisagens que revelam a relação entre seres humanos e natureza.
Hiromi Nagakura ficou especialmente conhecido no Brasil por seu olhar sobre a Amazônia e pelos encontros com lideranças indígenas, entre elas Ailton Krenak. Em suas fotos, a floresta aparece não como um “vazio verde”, mas como casa de inúmeros povos, com rostos, gestos, rituais e cotidianos muito concretos.
Essa abordagem aproxima o público urbano de realidades que costumam ser invisíveis na mídia tradicional.
A Amazônia na visão de Krenak e Nagakura
Quando Krenak e Nagakura se encontram, palavra e imagem caminham juntas. Em projetos e exposições que reúnem textos de Krenak e fotografias de Nagakura, a Amazônia aparece como território de vida, conflito e sonho, e não apenas como “pulmão do mundo” em slogan de campanha.
Krenak traz a crítica à ideia de que a floresta é recurso a ser conhecido; Nagakura mostra, em imagens, que ali existem pessoas com histórias, famílias e futuros em disputa.
Essa combinação ajuda a desmontar estereótipos tanto sobre povos indígenas quanto sobre a própria Amazônia. Em vez de reforçar a visão exótica ou distante, os dois aproximam o público, convidando-o a enxergar a floresta como parte de um mesmo mundo compartilhado.
Ao mesmo tempo, lembram que as decisões tomadas em capitais globais, conselhos de administração e conferências internacionais impactam diretamente rios, aldeias e modos de vida que suas obras registram.
Curiosidades que aproximam você dessa dupla
Algumas curiosidades ajudam a entender por que Krenak e Nagakura ganharam tanto espaço no debate público recente:
- Krenak é considerado um dos principais intelectuais brasileiros vivos e já foi chamado de “filósofo da floresta” por sua capacidade de unir cosmologia indígena e crítica ao capitalismo.
- Ele recebeu títulos de doutor honoris causa por universidades como UFJF e UnB, além de prêmios literários importantes, como o Juca Pato de Intelectual do Ano.
- Em suas falas sobre educação, Krenak insiste na ideia de “aprender a sonhar”, defendendo uma pedagogia que não separa escola, território e natureza.
- O trabalho conjunto dos dois é apresentado como uma forma de reposicionar a Amazônia no imaginário global: não só como fronteira econômica, mas como centro de sabedoria e reinvenção de futuro.
Nagakura, por sua vez, construiu carreira internacional retratando não apenas a Amazônia, mas também outros contextos em que tradição e modernidade se chocam, sempre com forte componente humano.
Ao juntar as “curiosidades” sobre Krenak e Nagakura, fica claro que a grande questão não é apenas quem eles são, mas o que eles nos convidam a perguntar: que tipo de mundo queremos construir a partir da relação com a floresta e com os povos que a habitam?
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