No último domingo, dia 21 de junho, o Centro Cultural Banco da Amazônia abriu suas portas para uma jornada lúdica de resgate da memória e conexão com a floresta. Sob o comando da atriz e contadora de histórias Ester Sá, a atividade “Histórias com o Fogo” reuniu um público majoritariamente infantil e seus acompanhantes para uma tarde de imersão em mitos indígenas tradicionais, em que o fogo foi a grande força central.
Além de um elemento físico de calor e luz, o fogo foi apresentado como um símbolo vivo de conhecimento, poder, transformação e convivência comunitária. Por meio da tradição oral dos povos originários, crianças e adultos puderam vivenciar a importância da partilha e da memória transmitida de geração em geração.
Preparando o corpo para a escuta
O encontro começou com um momento acolhedor de conexão. Antes de dar voz aos mitos, Ester Sá conduziu o público em uma breve preparação corporal. Por meio de brincadeiras com as mãos e movimentos guiados, a artista despertou a atenção, a escuta e a imaginação das crianças. Essa dinâmica inicial quebrou o gelo, envolveu as famílias e preparou o espaço do Centro Cultural para a imersão nos saberes ancestrais.
Após o aquecimento, o grupo participou de uma conversa inicial sobre a importância do fogo para diferentes povos indígenas, refletindo sobre o seu papel na proteção e na união das comunidades ao redor da fogueira para o compartilhamento de saberes.
Mitos, mistérios e aventura coletiva
O desenvolvimento da atividade foi marcado pela contação de duas grandes narrativas dos povos originários, conduzidas com muita expressividade corporal, encenações e diferentes entonações de voz que davam vida aos personagens:
- O Roubo do Fogo: O mito Guarani revelou como o fogo, inicialmente dominado de forma exclusiva pelos urubus, foi compartilhado com os demais seres da floresta através de uma emocionante ação coletiva liderada por Nhanderuvuçu. O clima foi de puro entusiasmo, com os pequenos reagindo a cada reviravolta da aventura.
- Wató, a Pedra do Fogo: Na sequência, o mito do povo Taurepang trouxe um tom mais contemplativo e misterioso. A história abordou a origem oculta do fogo e os profundos conhecimentos guardados por Pelenosamo, uma anciã sábia e enigmática que dominava esse poder.
Ao longo de toda a apresentação, as crianças não foram meras espectadoras. Elas se tornaram parte ativa da construção das histórias: respondiam a perguntas da contadora, reproduziam com entusiasmo os sons dos animais da floresta e imitavam os movimentos dos personagens, transformando o espaço cultural em um ambiente dinâmico de cocriação.
Diálogos de bastidores: a herança da transmissão oral
Apesar de ter sido uma sessão intimista, o impacto real da atividade pôde ser medido pela riqueza das conversas espontâneas que surgiram no encerramento. Nos bastidores e momentos de troca, o clima de partilha transbordou.
Curiosas, as crianças começaram a questionar sobre como as histórias eram contadas nos tempos antigos e passaram a compartilhar seus próprios relatos pessoais, relembrando momentos em que ouviram histórias contadas por seus pais, avós e tios. Essa ponte natural criada pelo público mirim validou o coração do evento: a sobrevivência da ancestralidade através da tradição oral.
Valores como o respeito à natureza, o senso de coletividade e a importância de dividir o que se sabe com o outro foram os grandes aprendizados que as famílias levaram para casa.




















