Três dias de encontros, diálogos e oficinas reuniram saberes ancestrais e pensamento contemporâneo no Centro Cultural Banco da Amazônia.
Entre os dias 12 e 14 de janeiro, o Centro Cultural Banco da Amazônia recebeu uma programação que se tornou um dos marcos culturais do aniversário de 410 anos de Belém.
A presença do escritor e líder indígena Ailton Krenak – primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras – e do fotógrafo japonês Hiromi Nagakura transformou o espaço em ponto de encontro entre memória, arte e resistência.
Os dois se reuniram em Belém para dialogar sobre as viagens que realizaram juntos pelo território amazônico na década de 1990, quando percorreram aldeias nas cabeceiras dos rios Juruá, Negro, Demini, Tarauacá e Gregório, além de regiões de cerrado e floresta .
A programação integrou as atividades da exposição “Hiromi Nagakura – Até a Amazônia com Ailton Krenak“, que reúne 82 fotografias inéditas no Brasil e fica em cartaz até 22 de fevereiro de 2026 no Centro Cultural.
“Ter um sujeito desse andando comigo na floresta, fortaleceu as minhas próprias observações sobre os lugares por onde a gente estava andando, os rios, as florestas, os rituais que ele viu nas aldeias”. Ailton Krenak
Um presente para Belém no dia do aniversário
No dia 12 de janeiro, data exata em que a capital paraense completou 410 anos, o Centro Cultural e o Instituto Tomie Ohtake abriram a programação com uma mesa de conversa entre Krenak e Nagakura na Galeria 1. O encontro propôs uma reflexão sobre as tradições milenares dos povos retratados na exposição, entre eles Ashaninka, Xavante, Huni Kuin e Krikati, a profunda relação desses povos com seus territórios e os desafios enfrentados na contemporaneidade.
A conversa também abordou o contraste entre as imagens capturadas nos anos 1990 e a realidade atual. Em entrevista exclusiva ao Grupo Liberal, Krenak alertou para a “desgovernança global” e os riscos que a Amazônia enfrenta, enquanto Nagakura expressou tristeza ao constatar a devastação do cenário amazônico três décadas depois.
“Esses pequenos momentos que vivemos ficam na memória, não é como essas inteligências artificiais de hoje em dia”. Hiromi Nagakura
Educação e território: diálogo com professores
Na manhã do dia 13 de janeiro, o centro cultural recebeu professores e educadores para um encontro com Ailton Krenak, Marineusa Pryj Krikati e Maria Alexandrina da Silva Pinhanta (Sãtsi). O diálogo abordou temas como educação, território, convivência e futuro, trazendo perspectivas dos povos indígenas sobre suas formas de ensinar, aprender e se relacionar com o mundo.
A atividade propôs um espaço de troca e escuta, estimulando educadores a repensar caminhos para a prática pedagógica a partir dos saberes ancestrais. Como Krenak costuma dizer: “Convivendo com os meus parentes na floresta, eu aprendi que a floresta é farmácia, é hospital, é supermercado. A floresta é tudo“.
O encontro com os povos da floresta e do cerrado
À noite do mesmo dia, a Galeria 1 voltou a reunir o público para a mesa de debate “O encontro de Ailton Krenak e Hiromi Nagakura com os povos da floresta e do cerrado”. A conversa reuniu lideranças indígenas que integram as comunidades fotografadas na exposição: Isa Tximá Huni Kuin, Maria Alexandrina da Silva Pinhanta (Sãtsi), Maria Salete Caapir Krikati e Marineusa Pryj Krikati .
Essas vozes puderam compartilhar a experiência de viver na Amazônia, seus desafios e as mudanças desde que os territórios foram fotografados até os dias atuais. O diálogo destacou a força dos biomas amazônicos e seus conhecimentos ancestrais como caminhos de cuidado, cura e resistência.
“Não é só falar do título da foto ou onde ela está, mas trazer a história sobre cada povo, o que cada povo tem para contar, que é muito amplo, é muito diverso. E, com a fotografia, ganha-se mais riqueza”. Wanderson Carvalho Kayapó – pedagogo e participante
Assista às transmissões no YouTube
Oficinas: tecelagem e pintura corporal como expressões de identidade
O último dia de programação, 14 de janeiro, foi dedicado às vivências práticas com oficinas conduzidas por mulheres indígenas:
- “A tecelagem do povo Huni Kuin” (10h e 11h30) — Isa Tximá Huni Kuin compartilhou conhecimentos sobre materiais, processos e significados da tecelagem, revelando sua relação com o território, o cotidiano e a vida comunitária.
- “Pintura corporal Huni Kuin e Krikati” (14h e 15h30) — Conduzida por Isa Tximá Huni Kuin, Maria Salete Caapir Krikati e Marineusa Pryj Krikati, a vivência apresentou grafismos, materiais e os significados que compõem a pintura corporal desses povos.
Pela manhã, Ailton Krenak também levou suas reflexões a uma escola pública de Belém, aproximando o conhecimento ancestral do cotidiano de estudantes do ensino médio.
Sobre a exposição
A mostra “Hiromi Nagakura – Até a Amazônia com Ailton Krenak” é resultado de sete viagens pela Amazônia, algumas com duração de até 40 dias, realizadas entre 1993 e 1998. Com curadoria do próprio Krenak, a exposição já passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Fortaleza antes de chegar a Belém.
Integra a mostra também a obra Território imemorial, criada pelo artista Gustavo Caboco, que apresenta um mapa dos territórios visitados pela dupla ao longo dessas travessias. A exposição é uma realização do Instituto Tomie Ohtake, com patrocínio do Banco da Amazônia e do Governo Federal.
Período: Até 22 de fevereiro de 2026
Local: Centro Cultural Banco da Amazônia — Av. Presidente Vargas, 800 — Campina, Belém (PA)
Horários: Terça a sexta, das 10h às 19h | Sábados, domingos e feriados, das 10h às 14h
Acompanhe as próximas programações
Para conferir a agenda completa do Centro Cultural Banco da Amazônia, ver mais registros fotográficos e ficar por dentro das próximas atividades culturais, siga o perfil oficial no Instagram (@bancoamazoniacultural) e acompanhe as atualizações no site oficial do Banco da Amazônia.






















